Alma partida

A alma está partida
Perdida em tristeza e desilusão
O olhar desencantado
Mira no infinito
Atrás dor
À frente saudade…

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Às ladeiras de Calçado

 

 

As ladeiras

As ladeiras

De minha terra

Sinuosas e belas

É por onde

Ainda hoje

À distância

Percorro

Os descaminhos

Da vida

Ando-as diariamente

Em saudade intermitente.

 

Obs: Eu nasci em São José do Calçado (ES), uma linda cidade quase na divisa do Espírito Santo com o Rio de Janeiro. Calçado é como Ouro Preto, entrecortada por ladeiras, só que infinitamente mais bonita que a bela cidade mineira.

“Botafogo nunca mais!”

O Botafogo e suas loucuras

 

– Nunca mais venho ao Maracanã ver esse time safado!

– Nem eu!

O breve diálogo acima  deu-se tempos atrás entre eu e meu amigo Saint-Clair após uma daquelas derrotas vexaminosas com que vez ou outra o Botafogo brinda seus “masotorcedores”.

Promessa devidamente feita, trunfamos nossas envergonhadas caras e caçamos o rumo de casa, com nossos rabos devidamente envergonhados e enrolados entre as pernas.

Botafogo nunca mais!

Três dias depois, uma quarta-feira, me liga o Saint-Clair, com seu jeito jeitoso de ser: – “Zé Antônio tô te ligando pra te dizer que vou ter de ir ao Maracanã domingo no jogo do Botafogo”.

– Mas nós não juramos nunca mais ir ao Maracanã ver jogos do Botafogo!?- indago.

– Juramos… Mas é que o Bruno, meu sobrinho que mora em Muriaé, me ligou e disse que quer ir ao jogo. Vou só pra fazer companhia a ele e matar a saudade, tem muito tempo que não o vejo. Quer ir com a gente?!

Respirei fundo e, diante de tamanha desfaçatez alvinegra, arrumei um argumento tão safado quanto o do Saint-Clair: – Bem, se é assim, eu vô! Também estou morrendo de saudade do Bruno!

Detalhe: eu nunca tinha visto o Bruno na vida. Fui conhecê-lo naquele domingo.

O resultado do jogo? Não faço a mínima ideia… Só fui ao Maracanã, assim como o Saint-Clair, matar a saudade do Bruno. E renovar minha gloriosa falta de vergonha alvinegra.

Tonicão

Tonicão

Hoje (2/11) é Dia de Finados, data em que recordamos nossos entes queridos que já partiram, afinal  a vida é uma eterna despedida. Abaixo a crônica que fiz para meu pai, que é a maior saudade, dentre tantas, que tenho nessa vida.

Tonicão, meu pai
Zatonio Lahud

Dia dos Pais, minha mãe avisa a mim e meus irmãos que o pai viria mais cedo para jantarmos juntos em um restaurante. Era uma sexta-feira ( no domingo os restaurantes ficam lotados ), estranhei a notícia pois meu pai não era dado a comemorações do gênero, Achava puro comércio, comerciante que era.
Marcou para 20 horas.
Antonio Lahud, era seu nome de batismo, Tonicão para todos. Pesava cerca de 110 kg- quando magro, o normal era por volta de 120 kg, distribuídos com fartura por cerca de 1,83 m de altura.

Todo mundo pronto, esperando sua chegada e nada do velho aparecer. Deu nove horas, dez, onze, meia-noite e nada, nem sombra do pai.
– Sabia- diz a mãe, hoje é sexta-feira, deve estar bebendo com os amigos e esqueceu da gente, vou preparar alguma coisa para vocês comerem. Quando ele chegar vai se ver comigo, deixa ele!- exclamou e saiu furinbunda, rumo à cozinha.

Todos de cara feia, com fome, sexta-feira perdida, quando entra o pai- já meio alto, uma sacola em umas das mãos, na outra um pequeno embrulho.
– Poxa, pai!- digo- começando a reclamar.
– Ninguém fala nada, eu explico, mas antes peguem uma cerveja para mim. Minha irmã foi lá, pegou a cerveja, o serviu e sentamos para ouvir a explicação:
– Demorei por causa disso aqui- disse- colocando o pequeno embrulho por sobre a mesa.Ganhei de presente dos meninos lá do posto- completou, já chorando.

O presente era uma carteira de dinheiro, daquelas feita em plástico barato, e ornada com o escudo do Flamengo. Os meninos eram dois garotinhos negros e muito pobres, que ficavam calibrando pneus no posto. Eram simpáticos e meu pai logo se tomou de amores pelos dois. Passou a dar almoço, comprou camisa do Flamengo, acompanhar os estudos… Essas coisas de pai.
– Mas por que está chorando?- indaguei.

– Vocês não entendem: quando estava saindo do posto os meninos vieram e me deram a carteira de presente pelo dia dos pais, compraram com o dinheirinho que ganham lá, calibrando pneus- disse ele, aos prantos.

– E aí?- perguntei.

– Aí me deram um abraço e um beijo; não aguentei comecei a chorar, botei os dois no carro e levei-os para jantar em um restaurante- nunca tinham ido em um, comeram à vontade, tomaram sorvete, uma farra danada! Depois comprei seis galetos para cada um levar pra casa e comprei mais seis pra vocês: tão aí nessa sacola! Foi isso que aconteceu, agora podem zangar- terminou, lágrimas escorrendo por seu rosto.

Como que combinados, levantamos os três, eu, meu irmão e minha irmã e fomos dar um abraço no velho- todos com lágrimas nos olhos.

As lágrimas que escorrem em meu rosto agora não são só de tristeza e saudade por sua ausência, não pai, são antes lágrimas de alegria e orgulho por ter sido você o meu pai.

Saudade.