Poema terno

Poesia sobre o tempo

O mundo gira

A cada dia

Mais rápido

 

Eu

contramão

Giro a cada dia

Mais lento

 

Hoje ganhei um tempão

Apreciando um beija-flor

Beijando delicadamente

Uma linda flor

 

Ao fundo

Fazendo a trilha sonora

De tão delicado amor

A sabiá emitia

Seu belo e suave canto

Que encanto!

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Que venha a vida nova

 

Que a esperança se realize.
Que a violência pereça e o amor floresça.
Que a vida seja plenitude.
Não para uns poucos, mas para todos.
Que vivamos com paixão. Mas sem jamais perder a compaixão pelos mais necessitados. Pelos que sofrem. Pelos que se perderam no caminho, por frágeis.
Sim, é necessário, essencial, que olhemos para a frente. Mas não nos esqueçamos jamais de também olhar para os lados… Se houver uma mão estendida clamando ajuda, agarre-a. E siga. O caminho se percorre amando.
Mais nós, menos eu. A única maneira de ser feliz é ser inteiro, pleno, integral!
Que venha a vida nova… O ano não importa se velho ou novo.

Paixão ardente

quero aconchegar-me 

bem de mansinho
em teu colo quente
feito criança carente
e adormecer placidamente
ao ninar de teus cafunés dolentes

e quando acordar
serei paixão ardente
ávido de teu corpo
e ferverei em ti
que entregará-se docilmente
ao furor de nosso desejo

beijará meu corpo suado
sentirás minha língua
mordiscando tua orelha
[ sussurros obscenos ]
tuas unhas cravadas em meu ombro
o corpo trêmulo do gozo que vem…

 

Angustiado

Alguns pensamentos do Barão

Ando angustiado. Meu filho está em Macau. Foi pouco antes dos atentados em Paris. Volta amanhã.

É uma longa viagem, mesmo de avião, e com escalas antes de chegar ao Brasil.

Medo de um desses malucos que andam soltos pelo mundo… Não gosto nem de pensar na hipótese, mas é meio que inevitável. E não posso fazer rigorosamente nada. Só controlar minha angústia e esperar que corra tudo bem.

Esse é o mundo que construímos… Tudo em nome de deuses que, pelo visto, adoram sangue inocente, afinal seus seguidores matam-se e matam inocentes em nome deles há milênios. E eles não estão nem aí para a matança. Amém.

 

Mãe

Há algum tempo venho acompanhando uma mãe e seu filho. Todos os dias lá vem ela, mãos dadas ao rapaz, talvez 20 anos, que é portador de síndrome de Down. Acordo cedo e desço para ver os jornais e conversar fiado na porta do boteco da esquina. Não demora muito e a cena se repete: lá vem a mãe, uma mulher esguia, uns 45 anos, cabelos lisos e negros, com seu filho, em sua rotina diária. O rapaz estuda numa escola para portadores de necessidades especiais na rua em que moro.

Na esquina eles param e ficam, todos os dias, conversando por cerca de 10 minutos. Não há, nesse tempo, um momento sequer que ela deixe de fazer um carinho no filho. Alisa suavemente seu rosto, abraça-o, riem, continuam a conversa, agora de mãos dadas. Fico ali, olhando os dois e todos os dias me emociono com aquela mãe. 

Hoje, ao despedir-se do filho, estava eu de pé e ela, ao virar-se para sair, notou que eu olhava a cena. Fitou-me com seus grandes olhos negros e se foi. Fiquei ali, estático, pensando no olhar daquela mulher.

Não havia no olhar daquela mãe nenhum resquício de amargura, ódio, ressentimento, tristeza; ao contrário: havia altivez, ali; não a altivez do orgulho e da prepotência, não; havia a altivez do amor, da ternura, do afeto; enfim do dever cumprido, não por obrigação, mas por grandeza. Sim, havia cansaço naqueles olhos, mas daquele cansaço que castiga o corpo e alivia a alma. O cansaço do prazer de amar por inteiro aquele filho; cansaço que não cansa, pois se torna nada diante do seu amor infinito.

Estou aqui escrevendo, mas a vontade que tenho é de dar um forte abraço naquele mãe e dizer: “Obrigado, mãe, nós, pobres homens, te invejamos por tanto amor…”

Zatonio Lahud- Fevereiro de 2010